sexta-feira

1897, 15 de janeiro

Batalhão seguindo à Canudos


    "Pela honra e memória de meus companheiros eu continuo a escrever: tamo na lagoa - lagoa do cipó - acampado. Com fome, medo e tristeza. To firido. Tentaram me martar. Mas eu que matei. E matei muitos.
    Dois dias atrás, Maria Joana, minha fiel ajudante, recebeu noticias de que tropas tavam vino. E grandes. Com sordado de mais de um estado. Estavam se preparando para sair de Uauá, armados com "canhões". Descubrimo o nome desse tar bixo. Meu Bom Sinhor Jeses nos falou que isso é obra de guerra: cano de metal que atira ! Martar dois ou três, de uma vez.
    Fumos para o a ponta do Serra Cambaio, armemonos lá. A gente sabiamos que eles tavam vino. Era quatro da tarde. O sol tava comendo a gente. Vimos de Uauá subir uma tropa de mais de 500 homi. Era muito homi. Como a gente nunca vimos antes. Tudo armado. E atrás, as máquinas de guerrear. Eles tavam subindo a serra pelo lado leste, após um braço dela, e por isso a gente tava escondido.
    Corremos, gritemos e ataquemos. Guerra, sangue, tiro. Eles tomaram susto. Mas eram sordados; e sordado guerreia de todo jeito. Treinemos para ir primeiro para a proteção dos "canhões". Atiremos até não ter mais chumbo e partir pra  pexera. Muitos caíram do nosso lado e do lado deles. Conseguimos avançar e fazer eles recuar. Chegou a noite. E cheguemos até a lagoa. Eles recuaram. Mas Pajeú acredita que foi para evitar mais mortes. Meu Bom Sinhor Jesus disse que eles virão com mais força, e que aquilo foi só o inicio. Então, tamo aqui na beira da lagoa com fome esperando qualquer movimento do inimigo.
    Podemos até morrer, mas é por uma boa causa. Recebi bala no braço e doe e mata. Estou cansado. Acho que não devo resistir por muito mais tempo. Mas lutarei até o fim. Por mais que digam que estamo errados, que somos loucos, eu lutarei. Lutarei e morrerei ou vencerei por aquilo que é certo. E por isso irei pro céu com meus companheiros e meu líder: Meu Bom Sinhor Jesus!

João Abade"

1897, 6 de janeiro

   "Ano novo. Mas a situação é a mesma.

   Recebemos noticias novas. Primeiro de João do Tanque: ele passou aqui no arraiá de novo, nervoso por demais. Ele disse pra gente que o governo juntou mais gente: dessa vez soldados de verdade, não mais praças. Dizendo ele, na cidade de Uauá tavam espaliando que quase meio milhar de tropa estava rumando pra cá. ARMADOS PRA MARTAR. Não entendi ainda essa raiva, essa fúria. Mas agora não quero mais saber! Vai ser guerra pela nossa terra. Aí comessamos a nos preparar, que pelo visto vai rolar coisa feia.
   Depois, Pajeú com mais três homi foram escondidos pra Serra do Cambaio1, ver se viam algum tipo de movimentação vindo de Uauá. Ficaram lá cinco dias e nada viram. Resolveram ir para a outra banda do rio ao sul daqui, para lado de Monte Santo, passaram mais quatro dias. Quando voltaram, Pajeú disse que viu coisas. Mas coisas que deviam ser discutidas.
  Reunimos a Companhia de Bom Jesus mais o nosso Bom Sinhor Jesus, para Pajeú contar o que viu. Ele disse que ficaram perto do rio, ainda distante da cidade para não encontrar ninguém. Ficaram dois dias vendo só os moradores e vendedores ambulantes saindo e entrando da cidade. Mas aí o absurdo ! Ele me disse que viu grandes canos de metal, como aqueles de filme. Tudo sobre roda. Pareciam bem pesados, pois dizia Pajeú que mais de dois homens tinham que puxar. Não sabemos o que é aquilo. Mas sabemos que é para martar. CERTESA.
   Ao receber as noticias, a gente se organizamos e preparamos alguns planos para batalia no mata. A gente conhece por demais essa terra. Pajeú e eu achamos que a gente podemos tirar algum tipo de vantagem disso. Vamos preparar vigias também. Todo cuidado é pouco agora.

João Abade"