sexta-feira

1897, 6 de janeiro

   "Ano novo. Mas a situação é a mesma.

   Recebemos noticias novas. Primeiro de João do Tanque: ele passou aqui no arraiá de novo, nervoso por demais. Ele disse pra gente que o governo juntou mais gente: dessa vez soldados de verdade, não mais praças. Dizendo ele, na cidade de Uauá tavam espaliando que quase meio milhar de tropa estava rumando pra cá. ARMADOS PRA MARTAR. Não entendi ainda essa raiva, essa fúria. Mas agora não quero mais saber! Vai ser guerra pela nossa terra. Aí comessamos a nos preparar, que pelo visto vai rolar coisa feia.
   Depois, Pajeú com mais três homi foram escondidos pra Serra do Cambaio1, ver se viam algum tipo de movimentação vindo de Uauá. Ficaram lá cinco dias e nada viram. Resolveram ir para a outra banda do rio ao sul daqui, para lado de Monte Santo, passaram mais quatro dias. Quando voltaram, Pajeú disse que viu coisas. Mas coisas que deviam ser discutidas.
  Reunimos a Companhia de Bom Jesus mais o nosso Bom Sinhor Jesus, para Pajeú contar o que viu. Ele disse que ficaram perto do rio, ainda distante da cidade para não encontrar ninguém. Ficaram dois dias vendo só os moradores e vendedores ambulantes saindo e entrando da cidade. Mas aí o absurdo ! Ele me disse que viu grandes canos de metal, como aqueles de filme. Tudo sobre roda. Pareciam bem pesados, pois dizia Pajeú que mais de dois homens tinham que puxar. Não sabemos o que é aquilo. Mas sabemos que é para martar. CERTESA.
   Ao receber as noticias, a gente se organizamos e preparamos alguns planos para batalia no mata. A gente conhece por demais essa terra. Pajeú e eu achamos que a gente podemos tirar algum tipo de vantagem disso. Vamos preparar vigias também. Todo cuidado é pouco agora.

João Abade"

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