Batalhão seguindo à Canudos
Dois dias atrás, Maria Joana, minha fiel ajudante, recebeu noticias de que tropas tavam vino. E grandes. Com sordado de mais de um estado. Estavam se preparando para sair de Uauá, armados com "canhões". Descubrimo o nome desse tar bixo. Meu Bom Sinhor Jeses nos falou que isso é obra de guerra: cano de metal que atira ! Martar dois ou três, de uma vez.
Fumos para o a ponta do Serra Cambaio, armemonos lá. A gente sabiamos que eles tavam vino. Era quatro da tarde. O sol tava comendo a gente. Vimos de Uauá subir uma tropa de mais de 500 homi. Era muito homi. Como a gente nunca vimos antes. Tudo armado. E atrás, as máquinas de guerrear. Eles tavam subindo a serra pelo lado leste, após um braço dela, e por isso a gente tava escondido.
Corremos, gritemos e ataquemos. Guerra, sangue, tiro. Eles tomaram susto. Mas eram sordados; e sordado guerreia de todo jeito. Treinemos para ir primeiro para a proteção dos "canhões". Atiremos até não ter mais chumbo e partir pra pexera. Muitos caíram do nosso lado e do lado deles. Conseguimos avançar e fazer eles recuar. Chegou a noite. E cheguemos até a lagoa. Eles recuaram. Mas Pajeú acredita que foi para evitar mais mortes. Meu Bom Sinhor Jesus disse que eles virão com mais força, e que aquilo foi só o inicio. Então, tamo aqui na beira da lagoa com fome esperando qualquer movimento do inimigo.
Podemos até morrer, mas é por uma boa causa. Recebi bala no braço e doe e mata. Estou cansado. Acho que não devo resistir por muito mais tempo. Mas lutarei até o fim. Por mais que digam que estamo errados, que somos loucos, eu lutarei. Lutarei e morrerei ou vencerei por aquilo que é certo. E por isso irei pro céu com meus companheiros e meu líder: Meu Bom Sinhor Jesus!
João Abade"

