sexta-feira

1893, 24 de junho


     "Nenhum cruzado na minha mão. Na palma da minha mão não vejo água. Não vejo carne. Nem arroz com feijão. Vejo o machucado e os calos de uma labuta que nada me rendeu. Minhas costas são marcadas pelo sol, meu pés, pelas vastas léguas que caminhei descalço e o meu olhar, pela tristeza de uma República infame.
     Chega! Cansemos. Cansemos disso (...) // trecho não mais existente1// (...) lugar que deixa nós feliz por demais. Cheguei ano passado. Sei que essa é a terra que quero desfalecer, cair mortinho e feliz. Cansemos deste Agreste dos coronérs. Coronér, mandava e desmandava. Nós abaixava a cabeça, labutava e não ganhava nada. Isso é terra para viver? Região de País? Acredito que não sei muito sobre essa tar de República, mas sei que não presta. Porquê mais se explicaria um lugar com tanta fome, miséria e ilusão.
     Me contaram sobre Canudos. Quando ainda estava em o Alagoas. Eu era viúvo e tinha trêis filho. Ainda sou viúvo, mas não tenho mais filho ninhum. O mais novo morreu de fome. O segundo de tanto sol, disse o médico. Tenho que me lembrar que esse sol castiga e mata. E o terceiro... O terceiro, quiria ser advogado. Discordou de coronér. Questão de uns papéis e uns impostos lá, não entendi bem. Mas aí, os jagunços martaram-no. Martaram-se, simplezim assim. Desse jeito que funciona fora de Canudos.
     Mas, aqui... É outra estória. Uns quinze dia atrás, fiz meu discurso. Juntei o povo dessas banda aqui tudim e discursei para o arraiá. Mainha teria ficado feliz. Falei que aqui seria, por definitivo, nossa terra. Para todo o sempre. Para amar e respeitar o próximo. Ao lado de nosso Bom Sinhor Jesus.
    E aí apareceu gente. Mais como apareceu gente, meu leitor ! Depois, que marquei Canudos como nosso NOSSO, e nosso com letra maiúscula, apareceu gente das redondezas. Todos como eu, sem comida, casa ou uns cruzados no bolso. Tão me dizendo que Vaza-barris está carregando todos da região para cá. Mió. Mió que vamos crescer e fazer um bom país.
    Vamos falar do que é bom, então. Meu Bom Jesus tá ao nosso lado; chegou quase junto comigo. Ele sabe por demais. E ora. E oramos com ele. Ele também fala dessa República e desses homi do cafe. Parece que sabe mais que eu. Junto com ele vamos crescer, abaixo de Deus Pai.
     Mas, o que é bom dura pouco, né?. Me disseram que tem uns coronér da região olhando feio. Dizendo que não tem mais homem para labutar e mulher para cozinhar. Que tão tudo vindo pra cá. Não sei não. As vezes penso que eles querem só o mió para uns tar de cafeultores, cafecultores, alguma coisa assim. Esses, meu finado filho mais velho disse que eram os grande. os chefões. Tudo barão de cafe. mas não. sei. Vamos esperar.
João Abade."

1: No relato original, esse trecho da folha está apagado. Provavelmente, desgaste pelo tempo e mal cuidado.

Um comentário:

  1. Fontes:

    http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/canudos2.htm
    http://www.suapesquisa.com/historia/guerradecanudos/
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Canudos
    http://www.brasilescola.com/historiab/canudos.htm
    http://pt.wikipedia.org/wiki/João_Abade

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